Elas são Mércias, Elisas, Eloás, Lúcias, Helenas, Carolinas...

Pertencem a diferentes raças, classes sociais, níveis intelectuais, atividades profissionais. Em comum têm apenas uma coisa: sofreram agressões de seus maridos, namorados ou amantes.

Escolheram esses homens para compartilhar a vida, formar uma família, dividir alegrias e tristezas, lutar ao seu lado por uma vida melhor.

Acreditaram que o amor que sentiam e que lhes dedicavam os ajudaria a mudar. A cada dia, após uma briga ou agressão, vinha um pedido de desculpas, e a promessa de que aquilo não mais aconteceria reacendia a esperança. Até o dia em que perceberam que as esperanças foram todas jogadas ao vento...

O cenário interno é de pós-guerra. Não há mais nada, a não ser um sentimento de destruição, medo, vergonha, marcas irreversíveis no corpo e na alma e uma dor profunda, que leva tempo, muito tempo para passar.

Isso sem falar das que morreram, vítimas das agressões, dos filhos que ficaram sem mães, e dos pais que ficaram sem suas filhas...

Essas são situações que, lamentavelmente, parecem estar longe de acabar.

Infelizmente, os jornais quase que diariamente dão esse tipo de notícia. E muitos de nós ouvimos e pouco nos comovemos ou paramos para pensar na gravidade do assunto.

Por mais terrível que pareça, ainda hoje não é raro ouvirmos algumas pessoas dizendo que mulheres gostam de apanhar ou provocam seus maridos e, por isso, são tratadas dessa forma. Ou ainda, que merecem ser maltratadas, pois não fazem nada para mudar essa situação. Esse deboche é tão agressivo quanto a atitude desses homens para com suas mulheres! Comentários desse tipo deveriam, sim, nos causar indignação, pois revelam ignorância e insensibilidade frente a uma terrível dor.

Outra forma de agressão é o pouco investimento em recursos para o amparo dessas mulheres, tais como abrigos, acompanhamento psicológico para toda a família, agilização dos processos etc.

E como se tudo isso não bastasse, a agressão masculina dirigida às suas companheiras é banalizada, pois costuma ser vista como briga de casal e segundo o ditado popular, "em briga de marido e mulher não se mete a colher". Aqui estamos diante de uma terrível distorção, pois agressão física ou verbal, palavras de baixo calão e situações de humilhação são casos de polícia e, por vezes, de saúde pública. E quem os presenciar deve se meter, sim!

É natural que existam brigas e conflitos em todas as relações. O que não é natural é quando apenas uma das partes exerce seu poder de forma autoritária, impossibilitando o outro de ter respeitado seu direito de expressão. E é essa a dinâmica que se estabelece em casais cujas mulheres sofrem violência.

Em geral, o homem intimida a mulher através da força física e das ameaças de agressão aos filhos. As que dependem financeiramente de seus companheiros ainda se tornam reféns da ameaça de ver sua família passar por privações, caso reajam às atitudes violentas dos maridos.

Quando começam as agressões, a grande maioria das mulheres acredita se tratarem de episódios isolados e, quanto mais passiva for a sua atitude, quanto menos denunciar e mais esconder, mais frequentes e violentos esses episódios costumam se tornar.

Pronto! Está estabelecida a relação de submissão que vai minando a força da mulher, comprometendo sua auto-estima, de tal forma que, a cada agressão, mais fragilizada ela se sente e sair da situação se torna mais difícil. Atribui, cada vez mais, um imenso poder ao agressor e passa a ser acompanhada de um medo constante de falar, emitir opiniões ou manifestar desejos e sentimentos.

Como acha que pode controlar os destemperos do marido, passa a evitar situações que acredita serem desencadeadoras de sua agressividade. Por exemplo, se ele gosta de silêncio, não deixa as crianças fazerem barulho; se reclama da bagunça da casa, procura manter tudo em ordem; se não sabe esperar, atende de pronto aos seus pedidos e assim por diante. Como resultado, recolhe-se e esconde as agressões sofridas, não apenas em função do medo, mas, especialmente pela vergonha que sente por ser agredida. E acaba por viver todo esse horror de forma muito solitária.

Contudo, fico me perguntando: quem deve ter vergonha? A mulher que foi agredida, ou o homem que covardemente impõe à sua mulher e filhos um clima de terror? Certamente ele deveria se envergonhar e refletir sobre suas atitudes, pois dessa forma poderia buscar ajuda e compreender o que o leva a agir dessa maneira. Gostaria aqui de fazer parênteses na situação da mulher para, rapidamente, dirigir o olhar para a questão do masculino. Certamente, não há justificativa para tais atitudes, entretanto alguns pontos devem ser levados em conta. O agressor também é vitima de si mesmo, uma vez que não consegue controlar sua agressividade, não sabe o que fazer com suas emoções, fragilidades e frustrações (inevitáveis na vida de qualquer um de nós). Em geral agride porque não acessa os reais sentimentos vividos em determinadas situações, então, reage agressivamente. Muitos aprenderam que, para exercer sua masculinidade, devem ser brutos e autoritários, mas, no fundo, toda essa arrogância e prepotência podem estar a serviço de esconder, nos mais profundos recônditos de sua alma, dores, inseguranças, humilhações e maus-tratos vividos. Além dos fatores relatados acima, o abuso de álcool, o uso de drogas e determinados transtornos de personalidade também podem estar presentes em situações de agressão e violência. Assim, o homem que agride também precisa de ajuda e acompanhamento psicológico. Em primeiro lugar, porque representa um perigo real para os que estão ao seu redor, principalmente para a sua família e mais especificamente para a companheira. Em segundo, mas não menos importante, pela necessidade de olhar para si mesmo e buscar o caminho do crescimento. Muitos desses homens acabam por ter uma vida infeliz e destroem qualquer possibilidade de se proteger de si mesmos. Perdem a família, as mulheres a quem amam, o amor e o respeito dos filhos e, em casos extremos, são privados da própria liberdade, pois acabam presos por chegar às últimas consequências. Bem, voltando às mulheres, é preciso que levem a sério os riscos que correm e busquem ajuda o mais rápido possível. Mulheres agredidas tendem a achar que não acontecerá nada pior e que a situação está sob controle. Entretanto é preciso ter cuidado, pois essa é uma falsa impressão! Algumas mulheres empatizam com a fragilidade do parceiro, isto é, conseguem compreender que a agressão denota a dificuldade dele em lidar com seus sentimentos e emoções, o que as leva a relativizar o perigo, que toda a família corre, ficando à mercê da agressividade de um de seus membros. Mas fica aqui uma pergunta para reflexão: Como pode uma mulher ficar atenta aos riscos quando sente medo de ser agredida ou assaltada na rua e, dentro de sua própria casa, “põe panos quentes” nas situações que envolvem riscos? Procurar todos os recursos, tais como a proteção de algum membro da família ou de amigos, buscar ajuda psicológica, orientação jurídica e assistência social, é a melhor solução. Superar o medo e a vergonha é, sem dúvida, muito difícil, mas denunciar e expor a situação são as únicas saídas possíveis para a grande maioria das mulheres nessa condição.

Certamente, ao olharem para dentro de si mesmas, perceberão o esfacelamento de suas personalidades, mas é preciso acreditar que o tempo é um grande aliado para a reconstrução da vida e que todos os recursos necessários estão lá - dentro de si mesmas.

Com a ajuda de profissionais especializados será possível descobrir, antes de tudo, a imensa força que existe dentro de si, pois é preciso ser muito forte para suportar uma situação de violência. Não é raro que essas mulheres, ao iniciarem um processo psicoterapêutico, percebam suas dificuldades em colocar limites e entrar em contato com sua própria raiva e indignação. Isso acaba por fazer com que desempenhem um papel complementar nesta relação de submissão. É a partir do resgate e do reconhecimento dessa força, dos potenciais, qualidades, aspectos criativos da personalidade, desejos e amor próprio que, naturalmente, começam a desabrochar e florescer, possibilitando assim que o brilho do sorriso, o respeito e a liberdade voltem a fazer parte de suas vidas.

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Mito de Procusto - símbolo da intolerância

Segundo a Mitologia Grega, Procusto era um homem que vivia na floresta. Tinha uma hospedaria e convidava os viajantes que por lá passavam para dormir e repousar. Porém, sua intenção era outra. A pessoa precisaria caber na cama oferecida. Se fosse maior que a cama, Procusto cortava-lhe os pés. Se fosse menor, ele esticava seu corpo até ficar do tamanho da cama. Quando ouvimos isso não nos parece terrívelmente cruel? Esse mito nos fala sobre o preconceito e a intolerância com a singularidade de cada indivíduo. Exatamente o que acontece quando discriminamos homossexuais, transgêneros, negros, mulheres, refugiados, pobres, obesos, ou qualquer pessoa que não esteja dentro dos rígidos padrões sociais estabelecidos.

Preconceito e desinformação

Falar sobre identidade de gênero não é tarefa fácil! Isso porque ainda esbarramos em muita desinformação e preconceito. Por essa razão torna-se urgente e fundamental a reflexão sobre essa questão e seus desdobramentos. Aumentam as discussões sobre esse tema pelo mundo todo, em vários segmentos da sociedade. Entretanto, é importante dizer que diferentes identidades de gênero e orientação sexual sempre existiram, mas foram consideradas doenças, o que certamente fez com que muitas pessoas passassem a vida inteira sem revelar quem eram ou o que sentiam para a família e para a sociedade. Até muito recentemente, o que determinava o sexo de uma pessoa eram as suas características físicas e preferências por assuntos relacionados a essas características. Ou seja, ser homem ou mulher era determinado apenas pelo sexo biológico, e qualquer coisa que fugisse do padrão vigente era visto como patológico. Na verdade, ainda é por muitos, infelizmente! Mas isso, vamos discutir mais adiante.

Transgêneros, homossexuais e transsexuais não são doentes

Então, o que mudou? Hoje não é apenas o SEXO BIOLÓGICO que determina se alguém é homem ou mulher. Falamos em IDENTIDADE DE GÊNERO (como a pessoa se identifica com seu gênero) e em ORIENTAÇÃO SEXUAL (heterossexual, homossexual, bissexual ou assexual). Alguns estudos apontam que já foram encontrados 56 gêneros diferentes. Vou fazer aqui um recorte didático para esclarecer algumas definições, somente com o intuito de entendermos melhor a questão. Contudo, vale lembrar que a intenção em esclarecer esses conceitos não está a serviço de rotular ninguém, mas sim, de nos ajudar a compreender e, assim, desenvolver um olhar empático para a diversidade. O mais importante, mesmo, é reconhecer a pessoa como um ser humano e não como uma categoria e, acima de tudo, respeitá-la em sua forma de ser, sentir e agir.

A primeira coisa que precisamos saber é: TRANSGÊNEROS, HOMOSSEXUAIS E TRANSEXUAIS NÃO SÃO PESSOAS DOENTES. A OMS (Organização Mundial da Saúde) excluiu a homossexualidade da lista de doenças e, inclusive, trocou o antigo nome que era homossexualismo por homossexualidade para descaracterizar a conotação de doença. Também foram retirados os transgêneros do Cid-11 (código internacional de doenças) que será utilizado a partir desse ano (2017), substituindo o cid-10, código utilizado até agora. Assim, dizer que são doentes é, no mínimo, falta de informação.

Sexo biológico, identidade de gênero, orientação sexual

Então, vamos entender as definições de sexo biológico, identidade de gênero e orientação sexual:

SEXO BIOLÓGICO – São as características físicas com as quais cada indivíduo nasce. É composto pelos órgãos externos e internos e podem ser:

  • Masculino

  • Feminino

  • Intersexo (antigo hermafrodita) – Presença dos dois sexos anteriores.

IDENTIDADE DE GÊNERO – É a forma como o indivíduo se sente, se reconhece e quer ser vista pelas outras pessoas. Pode ou não estar em consonância com o sexo biológico.

Principais tipos de IDENTIDADE DE GÊNERO:

TRANSGÊNERO - é a pessoa que se identifica com um gênero diferente daquele com o qual nasceu (sexo biológico).

Mulher Trans- um indivíduo que nasce com características masculinas, mas se sente e se percebe uma mulher. Homem Trans - a pessoa que possui características físicas femininas, mas que se sente e se percebe como um homem (homem trans).

CISGÊNERO - é o indivíduo que se identifica com o sexo biológico. Por exemplo: uma pessoa que nasce com características físicas femininas e se sente e se percebe como uma mulher.

NÃO BINÁRIO- é a pessoa que não se identifica 100% com nenhum dos gêneros, nem feminino, nem masculino. Não se sente nem homem, nem mulher, mas uma mistura dos dois que resulta em outra identidade de gênero.

ORIENTAÇÃO SEXUAL- é o direcionamento do desejo sexual e do afeto para outra pessoa, que pode ser de outro ou do mesmo sexo. É preciso ter claro que a orientação sexual nada tem a ver com identidade sexual. Indivíduos transgêneros, cisgêneros ou não binários podem ser heterossexuais, homossexuais, bissexuais ou assexuais.

  • HETEROSSEXUAL- é a pessoa que se sente atraída sexual e afetivamente por alguém do sexo oposto.

  • HOMOSSEXUAL- é a pessoa que se sente atraída sexual e afetivamente por alguém do mesmo sexo

  • BISSEXUAL- indivíduo que se sente atraído sexualmente e afetivamente por pessoas de ambos os sexos.

  • ASSEXUAL- pessoas com muito pouco ou ausência de desejo sexual por alguém. Porém, podem se apaixonar e amar profundamente outra pessoa, sem necessariamente ter desejo sexual.

Como podemos observar estamos diante de um novo paradigma e, portanto, da formação de uma nova consciência.

As dificuldades familiares

É Verdade que assimilar tudo isso pode levar algum tempo. A novela "A força do querer" aborda esse tema , através da personagem Ivana/ Ivan, que, em um primeiro momento, não entende o que acontece, pois não se encaixa em seu próprio corpo, não se sente uma menina, sente-se um menino, mas gosta de um rapaz. Vive uma confusão desesperadora! Até que um dia descobre e entende que é transgênero. Lida com isso em seu processo terapêutico e prepara-se para contar à sua família e iniciar o seu processo de transformação (transição). Ao comunicar à família, as reações são muito intensas. Difícil para todos e, sobretudo para ela, resolve passar uns tempos na casa de uma amiga, travesti, por quem se sente compreendida e acolhida. (Travesti, no Brasil, refere-se a uma pessoa que nasce com o sexo biológico masculino, mas que se identifica com o feminino. Veste-se como uma mulher, pode usar hormônios e recorrer a procedimentos e cirurgias para ser identificado como mulher).Porém não se sente 100% homem e nem 100% mulher). Porém esse termo carrega um estigma pejorativo.

Não é fácil para uma família entender que sua filha, que nasceu com o corpo de uma menina, seja um menino, na verdade! Não é fácil entender que aquela menina que inicia um processo de transição para tornar seu corpo harmônico com sua alma, jamais deixará de ser que sempre foi: o filho desses pais! Essa falta de compreensão pode se agravar muito em razão do preconceito, da desinformação e da culpa. Infelizmente muitos pais ainda se preocupam com o que as pessoas vão pensar sobre eles ou a forma como educaram seus filhos, ou como serão vistos perante a família e os amigos, caso, um filho ou uma filha for homossexual ou transsexual. Outros ainda se culpam e acham que erraram na educação e na forma de criar os filhos. Isso pode gerar uma dor profunda em toda a família. Aqui cabe refletir sobre o outro lado da moeda. Muitas pessoas trans ou homossexuais não sofrem com sua identidade de gênero ou orientação sexual. Muitas sofrem pelo preconceito, pelo medo da rejeição familiar e social ou por elas próprias não entenderem porque se sentem diferentes de grande parte das pessoas com as quais convivem. Vivem seus dramas caladas, fechadas em si mesmas, sem poder ser ou expressar quem realmente são, imersas em culpa, vergonha e profundamente solitárias. Muitos vivem em guetos, escondidos ou distantes de seus amigos e de suas famílias.

Rejeição e preconceito

Aqui vale lembrar de uma realidade muito triste: ambientes muito hostis e preconceituosos tendem a aumentar os índices de suicídios, depressões e dependências químicas em indivíduos homossexuais. Isso decorre do profundo sofrimento provocados pelo medo da violência, da rejeição e da exclusão impostos pelas famílias e pela sociedade. E, na verdade, não há nada que determine ou influencie o gênero ou a orientação sexual de qualquer pessoa. Ser transgênero ou homossexual não é consequência de nenhum erro dos pais. É apenas uma característica, como tantas outras de qualquer ser humano. NINGUÉM ESCOLHE SER HOMOSSEXUAL OU TRANSGÊNERO. A PESSOA JÁ NASCE COM ESSA ORIENTAÇÃO OU COM ESSA IDENTIDADE DE GÊNERO. BASTA QUE HETEROSSEXUAIS SE CONSULTEM E RESPONDAM SE ESCOLHERAM SER QUEM SÃO. CERTAMENTE NÃO! O problema não está em ser trans ou homossexual. O problema está na intolerância e no preconceito. Por outro lado, quando uma pessoa transgênero ou homossexual pode contar com a aceitação, o respeito e o apoio da família, se expressar e assumir quem verdadeiramente é, sente-se aliviada e livre. Renasce para a vida! Não está livre do preconceito, é verdade, mas certamente estará mais fortalecida e inteira para enfrentá-lo.

Informação, aceitação e ajuda

O único caminho possível, a meu ver, é enxergar e aceitar o outro como realmente é, e não através de lentes preconceituosas ou molduras pré-definidas, tal como Procusto. É abrir-se para a nova consciência. Estar disposto a se informar e compreender esse novo olhar. É preciso desenvolver um olhar empático para o outro, isto é, colocar-se no lugar do outro e abrir-se para o diálogo - lembrando que dialogar é falar, mas sobretudo ouvir o outro! Por esse motivo é muito importante que a família busque informação, orientação e ajuda psicoterapêutica, de forma que todos possam se fortalecer para caminharem juntos, apoiando-se mutuamente. É até compreensível que pessoas possam estranhar ou até mesmo discordar, mas jamais julgar, ofender, humilhar ou atentar contra qualquer pessoa que se encaixe nesses perfis. Se homossexuais ainda são perseguidos em alguns países, ridicularizados ou sofrem violência por parte de outras pessoas, o que dizer, então, dos transgêneros. Assim como os travestis, são vistos como perigosos, marginais, doentes ou indivíduos que só querem se prostituir.

Caráter não tem nada a ver com gênero

Não é raro ouvirmos comentários do tipo: eles influenciam os jovens, ou que escolheram ser assim ou ainda que a novela ou filmes ou debates sobre o assunto podem levar pessoas a se tornarem homossexuais ou transgêneros. Trata-se mais uma vez de uma visão distorcida e preconceituosa. Muitos travestis ou transgêneros, infelizmente, vivem nessas condições, porque direta ou indiretamente nós os colocamos lá! Porque não lhes é dada outra oportunidade; por serem vistos, erroneamente, como aberraçōes ou pessoas com problemas de caráter. Aqui cabe um esclarecimento: CARÁTER NADA TEM A VER COM ISSO. CARÁTER TEM A VER COM FALTA DE ÉTICA E NÃO COM ORIENTAÇÃO SEXUAL OU IDENTIDADE DE GÊNERO. Outro personagem da novela A força do querer, que de dia é Nonato, um homem, motorista e à noite é Elis Miranda, uma travesti, provavelmente não teria esse emprego caso se revelasse como Elis Miranda para seu patrão! Muito provavelmente seria ofendido e demitido de sua função. Tenho pensado muito sobre esse assunto e a pergunta que mais me rodeia é: por quê tanta violência e resistência com a orientação sexual ou a identidade de gênero de alguém? Qual é o mal que uma pessoa pode fazer ao outro pelo simples fato de ser homossexual, transgênero ou travesti? Não encontro outra resposta a não ser: NENHUM!

Empatia

Por esse motivo acredito profundamente que a empatia pode nos salvar de Procusto. Empatia significa a capacidade de se colocar verdadeiramente no lugar do outro. Quando nos conectamos com o sentimento de empatia, conseguimos nos aproximar da dor do outro e passamos a compreendê-lo melhor e a olhá-lo de forma mais acolhedora. Ao empatizar com o sofrimento ou com a situação de alguém, desenvolvemos uma comunicação através da emoção e do afeto. Isso é importante porque nos leva a refletir de forma mais integrada sobre a situação ou a pessoa que está diante de nós. Não agiremos com a crueldade de Procusto. Quem não desenvolve em si a capacidade de se colocar no lugar do outro, de sentir com o outro, de pensar em como o outro se sente, de se aproximar da sua dor e de sua experiência, não empatiza e perde a humanidade. E sem humanidade a Humanidade, certamente, se tornará cada dia mais inviável! E o preconceito, cada Dia mais forte e destruidor.

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  • Sâmara Jorge

Muitos foram os recursos propostos por Jung para a compreensão do funcionamento psíquico. Entretanto, seus estudos sobre o tema e escritos sobre a análise de seus próprios sonhos e de seus pacientes, constituem-se em material de extrema importância quando pensamos no trabalho psicoterapêutico dentro de uma perspectiva analítica.

Sonhos são ocorrências espontâneas, naturais. Fazem parte do curso natural da vida. Manifestam-se através de uma linguagem simbólica e revelam a vida interna do sonhador naquele momento de sua vida. Os sonhos procuram trazer para a consciência conteúdos inconscientes, ou seja, desconhecidos para a consciência.

É importante ressaltar que, quando falamos em linguagem simbólica, não estamos querendo dizer que os sonhos trazem informações disfarçadas ou escondidas. Trata-se de uma linguagem própria do inconsciente, que é diferente da que compreendemos conscientemente. Muitas vezes, um sonho pode conter em si, vários símbolos, com múltiplos significados.

Daí a importância de não se fazer interpretações genéricas sobre as imagens oníricas.Cada sonho, deve ser contextualizado, isto é, ao olharmos para um sonho, devemos pensar em quem o sonhou - qual o seu momento de vida, qual a sua história, para onde aquele sonho aponta na vida daquele sonhador, quais as associações que o sonhador faz em relação às imagens do sonho, etc.

Embora a compreensão de um único sonho possa trazer informações valiosas para uma pessoa, é muito rico, também, observar os sonhos em série e, a partir daí, compreender seus significados.

Segundo Jung, os sonhos têm uma função auto-reguladora, isto é, ajudam a manter o equilíbrio psíquico. Se um indivíduo está com a consciência muito unilateralizada, quando a vida está estagnada, seguindo sempre pelo mesmo caminho, certamente, os sonhos, trarão notícias de aspectos negligenciados da personalidade, potenciais a serem desenvolvidos, que ele próprio não está enxergando. Aí, gradativamente, podemos identificar quais as “saídas” para uma situação de vida. Essa é uma leitura prospectiva do sonho. Aqui devemos ter cuidado para não resvalar em uma compreensão mística ou mágica. Não se trata de adivinhação! Ao compreendermos esses aspectos deixados de lado pela consciência, identificamos, o que no presente está dificultando a vida daquele sonhador, despertando a consciência para o desenvolvimento de novos caminhos e possibilidades.

Então, qual o caminho para compreende-los?

Em primeiro lugar é preciso dizer que compreender um sonho, dentro de uma perspectiva Junguiana não é uma tarefa automática, nem mesmo imediata, isto é, “sonhar com isso quer dizer aquilo”. Não! Sonhar com isso não quer dizer aquilo. Os sonhos não são literais!

Quando recebo um paciente em meu consultório, sempre peço que reserve um bloquinho ou um caderno para anotar seus sonhos, o mais detalhadamente que puder, inclusive com impressões, sensações, sentimentos, lembranças e associações. Isso por si só, já não é um trabalho fácil!

Aos poucos isso se torna um hábito e, de certa forma, abre um canal de comunicação com o inconsciente, o que possibilita, após algum tempo, que o próprio paciente se sinta mais familiarizado com a linguagem dos sonhos.

Em alguns casos, depois de algum tempo, voltamos, ainda, a trabalhar algum aspecto de um sonho que não ficou esgotado!

Sonhos, muitas vezes, podem trazer pacientes para a terapia. Algumas pessoas, procuram ajuda, por terem sonhos recorrentes, ou por terem algum sonho que as impacte muito. Sem muita clareza do que isso quer dizer, mas relacionando com algum momento importante que estejam vivendo, acabam por ter uma impressão de que precisam de ajuda.

Alguns desses sonhos podem estar indicando a necessidade de mudanças, transformações na forma de olhar e viver a vida, etc.

Em fases de transição é comum sonhos em que aparecem pontes ou rios a serem atravessados, bifurcações, encruzilhadas, situações em que o sonhador encontra-se em dúvida sobre qual o caminho a seguir, cenas de conflitos, assim como sonhos de morte e renascimento ou nascimentos.

Entretanto, é importante ressaltar que isso não vale para todas as pessoas. Como disse anteriormente, é preciso contextualizar o sonho!

Muitas vezes, um sonho assustador, pode não estar simbolizando um perigo, mas uma dificuldade do sonhador, relativa a uma questão em um determinado momento.

Um exemplo disso é o de um paciente que sonha que sua casa está sendo invadida por bandidos. Esse sonho pode estar revelando que há conteúdos inconscientes que estão precisando se tornar conscientes, mas que não encontram outra forma senão “invadir”, arrebatar a consciência para serem compreendidos. Quanto mais difícil para o indivíduo aceitar esses momentos, mais perturbadoras podem ser as imagens dos sonhos. É como se o inconsciente “exagerasse” para chamar a atenção da consciência para uma questão a ser resolvida.

Por isso, é sempre bom tratar os sonhos com respeito e sem banalizações!

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