• samarajorge

“Tudo o que quer de mim

irreais

expectativas

desleais”

Vanessa da Mata

Quem de nós vive sem criar expectativas?

Ninguém!

Elas fazem parte da vida e são criadas, sobretudo, quando estamos começando um novo trabalho, um novo projeto ou um relacionamento.

Quando conhecemos alguém e nos apaixonamos, projetamos no outro nossos desejos, nossos medos e até a nossa felicidade, mas a verdade é que ainda não o conhecemos o suficiente para saber como ele é de fato.

Contudo, é importante termos clareza de que nossas expectativas são nossas, e que nem sempre o outro vai correspondê-las ou ser como o idealizamos.

Esse tem sido um tema bem recorrente nesses tempos pandêmicos.

Muitos casais, com mais ou menos tempo de relacionamento, decidiram morar juntos ao longo da pandemia.

Nesse momento tão difícil, de isolamento social, medos e incertezas, ter a companhia do parceiro parecia a solução ideal. E, para muitos, foi mesmo uma ótima decisão!

Porém isso não quer dizer que seja fácil, pois se relacionar não é tarefa simples. Requer muita empatia, paciência e disposição para olhar para dentro de si, para suas expectativas e, principalmente, para lidar com as tão temidas frustrações.

Muitas vezes achamos que o outro nos decepcionou, mas na verdade, fomos nós que nos decepcionamos, por projetarmos nele, coisas que são mais nossas do que dele. E, quando não estamos atentos a isso, abrimos espaços para brigas, desentendimentos e cobranças.

Daí a importância de criar um espaço de diálogo para que o relacionamento se construa de forma saudável e profunda. Sem isso ficaremos oscilando entre nossas expectativas e frustrações, o que pode acabar nos distanciando do parceiro e destruindo a relação.

Quando falamos em diálogo, sempre pensamos que precisamos ter espaço para falar o que sentimos, o que é verdade, mas só em parte.

Dialogar implica em falar e ouvir, desenvolver uma escuta amorosa, mergulhar no que o outro está dizendo, em como nos sentimos e trocar.

Construir uma comunicação amorosa, percebendo o que é nosso, o que é do outro, o que é nossa expectativa, e quem é o nosso parceiro, verdadeiramente, é a melhor forma de viver uma relação de amor, respeito e harmonia.

Mas, para isso, é necessário dialogar, antes de tudo, com si mesmo, refletindo sobre as próprias percepções, sentimentos e atitudes.

Quando nos aprofundamos em nós mesmos, e temos a coragem de nos ver como realmente somos, estamos prontos para nos aprofundar no outro e descobri-lo, sustentando o crescimento do amor, sem os véus de nossas expectativas e idealizações.

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  • Sâmara Jorge

Updated: Sep 4

Quando a pandemia chegou não tínhamos a menor ideia de como ficariam nossas vidas, muito menos, as nossas relações.


Todas, certamente, passaram por mudanças.


A tela ocupou o vazio deixado pela falta dos beijos, abraços e dos encontros gostosos. Datas especiais passaram a ser comemoradas telepresencialmente.


Em um primeiro momento tudo parecia suspenso, afinal, seriam poucos meses até que a vida voltasse ao normal. Porém, não foi assim e, até o presente momento, estamos em meio a um tempo que parece não ter fim.


Saudade é um sentimento que se faz presente na grande maioria de nós.


Foi necessário que nos reinventássemos para não congelar as nossas vidas, até que a pandemia terminasse.


Isso fez com que as relações ganhassem novos arranjos.


As experiencias são as mais diversas.

Alguns solteiros fecharam-se e recolheram-se, esperando a crise melhorar e a vida “voltar ao normal”.


Outros, profundamente incomodados com a solidão, resolveram se aventurar em aplicativos e conhecer pessoas, ainda que virtualmente, arriscando um encontro com aqueles que sentiam que poderia “dar match”.


Namoros se iniciaram na pandemia, e seguem, mas não sem ressalvas, pois fica uma lacuna a ser preenchida quando a pandemia acabar: como será essa relação fora da bolha? Será que ainda existirá um casal, quando, novamente, estiverem se relacionando socialmente?


Em outros cenários, separações foram adiadas pela dificuldade de, nesses tempos, alguém sair de casa ou fazer uma mudança tão grande na vida. Alguns tiveram a oportunidade de, por não agir impulsivamente, ressignificar a relação, e se reconectar com o amor que sentiam.


Ou ainda, separações fizeram-se urgentes, pelo aumento do número de casos em que a violência doméstica se revelou ou, pior, tornou-se insuportável, a ponto de precipitar uma atitude que, de outro modo, poderia levar anos para ser tomada.


Movidos pelo desejo ou pelo receio de não conseguirem sustentar relacionamentos à distancia, alguns casais, com pouco tempo de convivência, decidiram se juntar e acabaram “casados”, compartilhando a vida, sem planejamento anterior, e construindo a relação em uma situação, onde a presença do outro, quase nunca se torna ausência.


Situação difícil para aqueles que precisam de tempo para tomar decisões e fazer planos lineares para suas vidas, ou que temem a intimidade. Para esses, a opção foi ficar separados, namorando à distancia ou encontrando-se pouco. Entretanto, nessas parcerias, com o passar dos meses, revelou-se o receio de que a relação se tornasse morna ou não se sustentasse por muito tempo, pela falta de convivência.

Seja como for, do ponto de vista subjetivo, a pandemia tem revelado, e espelhado, a forma como nos colocamos no mundo, como nos relacionamos com nossos medos, nossos impulsos, nossas dificuldades e de como nos posicionamos em situações desafiadoras.. Ativou reflexões e a busca por respostas a respeito de nós mesmos e de nossas relações. Estimulou a criatividade para lidarmos com um momento tão difícil e inusitado. E, sobretudo, trouxe à tona a resiliência, tão necessária, para colocarmos vida, dentro dessa vida que estamos vivendo.



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  • Sâmara Jorge

Marina, mãe de Bruna, 6 anos: “Quando penso na adolescência de Bruna fico me perguntando: será que vai chegar o dia, em que não precisarei dizer à minha filha que tome cuidado ao sair, que procure não andar desacompanhada na rua, à noite? Embora ache isso absurdo, tenho que pensar na realidade que vivemos”.

Estela, mãe de Caio, 6 anos, passava pela sala quando seu filho, acidentalmente, levantou seu vestido com a espada que estava brincando. Ela se voltou para ele e, delicadamente, perguntou se havia percebido o que aconteceu. Ele acenou com a cabeça que sim. Então ela lhe disse: “Filho, sei que não foi de propósito, mas nunca se deve levantar a saia de uma mulher sem o consentimento dela”.

Essas duas falas aconteceram exatamente, na semana em que, na audiência, a vítima, Mari Ferrer, foi desrespeitada, assediada e culpabilizada pelo advogado de defesa do rapaz suspeito de tê-la estuprado. Já o réu foi absolvido, porque o juiz considerou não haver provas de que houve intencionalidade de estupro.

Sim, infelizmente, ainda não podemos deixar de alertar nossas filhas quanto aos cuidados e atenção que devem ter, por exemplo, ao andar sozinhas à noite, com ou sem short curto, para se protegerem, pelo simples fato de serem mulheres. Mas também, precisamos ensinar a elas que, embora tenham que tomar os devidos cuidados, a culpa NUNCA, será delas, caso sofram QUALQUER manifestação masculina que contrarie a sua vontade. Que sempre devem exigir respeito. Cobrar da sociedade que agressores sejam punidos, e não justificados.

Porém, um outro lado deve ser discutido e observado: temos que cuidar e ficar atentos à educação dos nossos meninos.

Muitas mães e pais reproduzem padrões machistas, às vezes sem perceber, na educação de seus filhos.

Quem nunca ouviu frases do tipo: “ prenda suas cabras que meu bode está solto”, ou “que delícia de comida! Já pode casar!”

Ou mães e pais que não deixam os meninos ajudar nos afazeres domésticos e pedem tudo para as meninas, alegando que é importante que elas aprendam a cuidar da casa.

Pode ser difícil perceber claramente, mas a mensagem subliminar é: meninas devem se preparar para cozinhar, cuidar da casa e que os meninos (bodes) não têm responsabilidade, caso desrespeitem uma menina (cabra).

Para que situações como essas não aconteçam é necessário que a mãe tenha a consciência do lugar em que a mulher é colocada no universo machista e do desrespeito vivido por todas nós. E que o pai seja exemplo e reafirme, através de suas atitudes, uma postura de respeito e admiração pelas meninas e mulheres que o rodeiam.

Aos meninos deve ser ensinada a parceria e o respeito às mulheres.

Como tudo em educação, não é necessário abrir uma solenidade para conversar com os filhos sobre respeito, amor, empatia ou cuidado com o outro, principalmente quando esse outro for uma menina.

Isso pode e deve acontecer dentro do contexto, nos momentos vividos, na simplicidade do dia-a-dia, como fez Estela. Basta ter olhos para ver.

Limites e regras devem ser dados com afeto. De nada adiantaria dizer, a mesma coisa que Estela falou a Caio, aos berros ou desrespeitando a criança. Se estamos ensinando respeito e cuidado com o outro devemos demonstrar o mesmo por nossos filhos.

Caio será um homem, um dia e, muito provavelmente, terá internalizado esse ensinamento. Saberá se relacionar com uma mulher, conforme sua mãe lhe ensinou, e repassará esses valores para seus filhos, que passarão para seus netos e bisnetos...

Acredito que as transformações só acontecem através de um processo de conscientização, que se multiplica através da educação, dentro de cada relação, de cada família e do nosso entorno próximo.

Mães e pais de meninos carregam a enorme responsabilidade de educar seus filhos para amar e respeitar uma mulher, e não para exercer uma relação de poder com ela.

Como diz Jung, psiquiatra suíço do início do século XX, o oposto do amor não é a raiva. É o poder. E onde há relações de poder não existe espaço para o amor.

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