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Análise da série Bridgerton

Nos últimos dias assisti às duas temporadas de Bridgerton.

A princípio, uma série de época, onde os romances seriam o ponto central.

Porém, além dos romances, dos cenários e figurinos lindos, me encantou (e me angustiou) a discussão sobre o papel da mulher na sociedade, o feminino em cada uma delas e o drama psicológico dos personagens.

Muitos deles, os masculinos e os femininos, de alguma forma, buscam a si mesmos e carregam um trauma, uma dor profunda, causada, sobretudo pelas expectativas, padrões e regras de uma rígida sociedade patriarcal, que prescinde, ignora e tenta aniquilar a individualidade.



Imagem: Aminah Dantzler


As relações se dão através do cumprimento do dever e do, inevitável, destino imposto a cada um.

Uma personagem que simboliza isso de forma muito contundente é Miss Thompson, parente da família Featherington.

Grávida, tenta de todas as maneiras esperar pelo homem que ama, que foi para a guerra, mas voltaria para se casar com ela, mesmo sem saber que esperava um filho dele. Apesar das constantes humilhações que sofre, mantém sua determinação e dignidade, até que, sem saída, é engolida pelo coletivo. Não há lugar para uma mulher, solteira, grávida, em uma sociedade que nega a sexualidade feminina, e que só a enxerga como alguém, cuja função, é estar a serviço do homem e procriar. Principalmente nas famílias mais abastadas.

Não por acaso, Miss Thompson foi parar naquela casa, que é um grande palco de toda a sombra coletiva. Sua maior algoz é Lady Featherington, que, a meu ver, com sua Persona fortemente fixada, que impede a sombra de ser integrada, é a representação suprema da sociedade retratada na série.

Parece haver dois mundos.

A Persona é a grande protagonista da alta sociedade daquela época. A condição humana com seus fracassos, medos, inseguranças, vícios, comportamentos escusos, assim como Eros, a espontaneidade, os desejos e a individualidade habitam as sombras. Tudo o que não faz parte do que é permitido ser visto, é secreto, mas, como sabemos, não deixa de existir. E pulsa por aparecer, se expressar.

Desse ponto de vista, Lady Wisthledon é imprescindível. Carrega em si o arquétipo do Trickster (aquele que prega peças e transgride as regras sociais). Através de sua identidade secreta, traz à tona as mazelas sociais e revela as sombras, com toda a sua ironia e maledicência. E aguça a curiosidade de todos. Está em todos os lugares, sabe de tudo o que acontece. Parece estar a serviço do Self, o arquétipo da totalidade, que tem como função principal, desenvolver a consciência, permitindo o encontro com o mais verdadeiro e essencial que existe em nós, individualmente e coletivamente, buscando juntar os mundos e promovendo a integração da Personalidade.


Pensando nos arquétipos do feminino é Hera quem reina. Como já falei em outro texto, Hera é o arquétipo da esposa. Na sociedade patriarcal as deusas estão todas feridas. Assim como na série, as mulheres que têm esse aspecto (da ferida de Hera), muito forte em seus psiquismos, casam-se com o casamento, com o papel de esposa e com o marido (mas não necessariamente, com o amado). Essas mulheres Hera destinam, todas, a sua força e poder para a manutenção das regras impostas pelo patriarcado, sem a consciência de que, cada vez mais, aprofundam e perpetuam a ferida e a dor.

Porém, uma mulher Hera chamou minha atenção, por viver esse arquétipo de forma mais integrada, foi Lady Violet Bridgerton. Viveu com seu marido um amor verdadeiro, onde a troca, o companheirismo, a inteireza e a lealdade estavam presentes. E teve a experiência profunda do casamento, tão importante para Hera, mas contemplou à Afrodite, permitindo-se experenciar a paixão e o amor. Quando ele morre, sua dor é tão grande, que não consegue conceber sua existência sem a presença do marido amado, apesar de seus oito filhos. Contudo, parece que após viver um intenso período de luto, atende ao chamado de Deméter (o arquétipo da mãe) e consegue seguir. Embora continue adaptada aos padrões sociais, sua Deméter também parece ir se integrando a cada episódio, particularmente com Anthony, seu filho mais velho. Dentro do contexto em que vive e de suas possibilidades, ela dá o seu melhor. Enxerga cada filho em sua singularidade, tem intervenções afetivas, preocupa-se e é empática com cada um deles.

Não por outra razão, seus filhos e filhas acham espaço na família para questionar o status quo.

Eloise, por exemplo, é uma combinação de Atená - intelectual, inteligente, questionadora, curiosa, vive com o nariz enfiado nos livros - e Ártemis - feminista, anseia por liberdade, autonomia, fala o que tem vontade, expressa a sua autenticidade e força. Tem interesse por entender as lutas e injustiças sociais. Embora seja sensível e empática, é corajosa, determinada e não se deixa dominar. Os espartilhos parecem sufocar sua alma livre.

Através dela e dos lugares pelos quais transita, fora dos portões de sua residência luxuosa, podemos observar os primeiros passos da luta pelos direitos das mulheres, fagulhas de questionamentos, despontando uma consciência, que dois séculos depois, ainda tentamos fortalecer e integrar.


Ou Daphne, que vive a sua passagem de menina para mulher. A narrativa de sua personagem lembra muito o mito de Eros e Psiquê. A adolescente, ingênua, sendo devidamente preparada para cumprir o seu papel social e que não questiona seu destino. Quando conhece o Duque Simon Hastings, um verdadeiro Eros, começa a entrar em contato com seus sentimentos e desejos e, especialmente, com a clareza de que sua busca não é apenas pelo casamento, mas pela união através do amor. A paixão por Simon e a descoberta da própria sexualidade dão início ao seu processo de desenvolvimento e


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